Uma estranha realidade

Vou falar hoje sobre nossa percepção: como ela é moldada pelas nossa experiências passada e presentes que, mescladas, criam expectativas futuras.  O que isso tem a ver com design de interação? Well, keep dreaming with me.., quero dizer, reading.

Leio Jeff Johnson, phd, autor do livro Design with the Mind in Mind.

O livro cita boas práticas para se desenhar sistemas interativos e preocupa-se em explicá-las com um viés aprofundado em psicologia cognitiva.

Vários autores (Norman, Shneirderman, Nielsen, Marcus, etc) se interessaram em criar guias de boas práticas para tornar as interfaces de computador mais acessíveis. O que eles têm em comum? Segundo Johnson, 2010,  alguma graduação em psicologia cognitiva: estudaram com profundidade como as pessoas percebem, aprendem, argumentam, lembram e convertem intenções em ações.

Acompanhem o quadro comparativo abaixo, notando a semelhança entre os postulados:

Shneiderman (1987); Shneirderman e Plaisant (2009) Nielsen e Molich (1990)
– Busque a consistência

– Atenda a usabilidade universal 

– Ofereça feedbacks informativos

–  Antecipe erros

– Permita desfazer as tarefas facilmente

– Permita aos usuários a sensação de que eles estão no controle

– Minimize o uso da memória de curto-prazo

– Consistência e normas

– Visibilidade do status do sistema 

– Correspondência entre o sistema e o mundo real

– Controle do usuário e liberdade

– Prevenção de erro

– Reconhecimento ao invés de recordação

– Flexibilidade e eficiência de uso

– Ajuda ao s usuários a reconhecer, diagnosticar e restaurar os problemas

– Prover documentação e ajuda

Segundo Johnson, 2010, a nossa percepção pode ser influenciada por três fatores:
– presente (experiência)
– passado (contexto)
– futuro (nossos objetivos)

Percepção influenciada pela experiência anterior

Their perception [users] of the display is based more on what their past experience leads them to expect than on what is actually on the screen. This sometimes confounds software designers, who expect users to see what is on the screen. But that isn´t how perception works. JOHNSON, 2010, p. 5

Considere a sentença: “nova vacina contém raiva”. Ela pode ser interpretada como uma má notícia por pessoas que leram matérias sobre contaminação de vacinas ou como um avanço científico se você leu sobre o sucesso do uso de vacinas para combater doenças.

O botão “anterior” e próximo” foram trocados na última página do wizard ilustrativo abaixo. Muitas pessoas não perceberiam esta troca e continuariam a clicar no botão “próximo” como se ele ainda estivesse posicionado no mesmo lugar. O sistema visual torna-se inatento pela ordem dos botões das páginas anteriores. Este é o principal motivo pelo qual a norma “busque a consistência” é freqüente em guidelines para design de interfaces. (JOHNSON, 2010)

(Crédito: Jeff Jonhson)

Percepção influenciada pelo contexto atual

(…) o padrão de atividade neural que corresponde ao reconhecimento de uma letra, palavra, rosto, ou qualquer objeto é estimulada pelo contexto. Este contexto pode reativar a memória de objetos e eventos passados(…)  JOHNSON, 2010, p. 5

Para Johnson, 2010, contexto é a percepção do momento atual, influenciado por um ou mais sentidos:
– o que vemos é influenciado pelo que estamos ouvindo e vice versa;
– o que nós sentimos com pode ser influenciado pelo que escutamos, vemos ou cheiramos.

Quando tentamos interpretar como nossa percepção visual trabalha, podemos pensar que é uma atividade fasciculada, começando pela identificação de ângulos, curvas, texturas e, finalmente, transformando figuras em objetos identificáveis.

Entretanto, muitas vezes o processo de percepção é oposto ao citado acima. A leitura pode servir como exemplo:

Podemos ler reconhecendo as letras, palavras, orações e parágrafos progressivamente, compreendendo o sentido do texto sem a necessidade do contexto. (O autor chama esta leitura de bottom-up and context free process).

Entretanto, a maioria das pessoas lê os textos com um conhecimento prévio do assunto, oriundo do seu contexto atual. A partir disto, procuram padrões em sentenças ou palavras para descobrir ou advinhar o sentido da redação, fazendo uma espécie de leitura dinâmica de conteúdo. (O autor chama este tipo de leitura de top-down process)

Vocês já notaram a quantidade de sites que apresentam na home page textos curtos, em tópicos, introduzindo suas funcionalidades? É uma maneira de contextualizar o usuário antes de sua navegação: uma espécie de sinopse para websites:

Site da Apple

 

Site do Linkedin: rede social que conecta profissionais

Flickr: rede social para compartilhar ou organizar fotografias

Esse também é um dos motivos pelo qual textos extensos na internet são desaconselhados.

Percepção influenciada por objetivos
Segundo JOHNSON, 2010 nossa percepção é influenciada por objetivos futuros. Nossos planos filtram nossas percepções, excluindo objetivos desarmônicos com eles da nossa mente consciente.

Como vimos, quando os usuários procuram por funcionalidade nos sites, não lêem cuidadosamente. Rastreiam ansiosamente a interface pesquisando itens relacionados aos seus objetivos: não só deixam de notar tópicos irrelevantes à sua pesquisa, como simplesmente ignoram o conteúdo da página.

Resumidamente: o cérebro é capaz de focar nossa percepção em aspectos de nosso interesse, mesmo que vários acontecimentos surjam simultâneamente aos nossos sentidos.

Todos os carros vermelhos surgem inteligíveis à sua mente se você buscar, hipoteticamente, pelo seu veículo desta cor no estacionamento. Outras cores não serão registrados pela sua consciência, mesmo que você em algum nível os perceba. (JOHNSON apud WARE, 2008).

Implicações no design
O estudo sobre como as pessoas são influenciadas por suas percepções passadas, presentes e futuras tem implicações no design de interfaces. Seguem elas:

Seja consistente
Informações, botões, painéis de controle que atendem a mesma função em todas as páginas do site devem ser posicionados no mesmo lugar, ter a mesma cor, tamanho de fonte etc. Esta padronização permite aos usuários reconhece-los rapidamente.

Entenda os objetivos dos usuários
Os usuário usam o sistema para realizar um objetivo específico. Como vimos, o cérebro prioriza informações que atendem nossas metas futuras. Deste modo, entenda o propósito do seu público e desenhe interfaces que considerem estas necessidades. Forneça, em todos os pontos do sistema, instruções para torna-lo simples de usar.

Bibliografia
JOHNSON, Jeff. Design with the mind in mind. Simple Guide to Understanding User Interface Design Rules.
Estados Unidos: Elsevier, 2010. p. 1
WARE, Colin. Visual Thinking for Design. Estados Unidos: Morgan Kaufmann Publishers, 2008.

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3 comentários sobre “Uma estranha realidade

  1. Adorei!
    Texto muito bem escrito, com linguagem e abordagem bem apropriados. O conteúdo é muito relevante e interessante, Iris.
    Gosto muito de ler textos bem fundamentados e articulados com esse. Acrescenta muito e a gente aprende muito contigo.

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